VALE DO JEQUITINHONHA 2! MATERIAL HUMANO

O MATERIAL HUMANO

NADA CHEGA AO INTELECTO, SEM PASSAR PELOS SENTIDOS!

Como prometido no Post anterior, neste pretendo expor um pouco das impressões que tive com o contato humano com as pessoas que encontramos pelos caminhos percorridos nessa expedição.

As primeiras pessoas que cruzamos foram os donos do hotel/pousada em que ficamos por uma noite em Ponto dos Volantes. Pessoas super doces, mas com quem infelizmente não tive tempo de ter muito contato.

A forma maravilhosa com que se preocuparam com nosso atraso na chegada, de manter o café da manhã guardado para nos servir na hora em que chegamos (quase á hora do almoço), e de nos servir um jantar maravilhoso quando já não tínhamos mais muita consciência de quem éramos ou de onde estávamos (devido às longas horas de viagem e da exaustiva correria por um Brasil desconhecido da maioria de nós).  A preocupação de saber se estávamos bem instalados nos quartos, o café da manhã do dia seguinte, as conversas rápidas entre um gole de café e um pão de queijo foram muito melhores do que muitas recepções que tive em hotéis 4 estrelas, casa de amigos e até mesmo familiares, aqui e no exterior.

Não podemos nos esquecer que se trata de uma cidadezinha no meio da estrada Rio – Bahia que conta com aproximadamente 11.000 habitantes no município inteiro e não uma grande capital como Buenos Aires, Londres ou São Paulo.

Já em Santana do Araçuaí, conhecemos dona Isabel e 3 de seus filhos.

Dona Isabel é uma senhorinha tímida e muito doce, que aprendeu a valorizar seu trabalho e só os realiza sob encomenda e em número muito reduzido hoje em dia, isso também devido a seus 86 anos. Ela é a responsável pela revitalização da cidade e pela continuidade da tradição ceramista na região, tendo passado seus conhecimentos e técnicas para seus descendentes.


Ela acabara de passar por uma cirurgia e se encontrava um tanto abatida, mas fez questão de nos receber e posar para fotos com nosso grupo e junto a uma de suas filhas. Os outros filhos de D. Isabel, também nos receberam de braços abertos em suas casa e nos deram aulas sobre diferentes assuntos relacionados à cerâmica. De onde obtinham a argila, de como prepara-la para moldar. Da queima, do preparo dos engobes, etc..

È muito bom ter a clareza de mente para perceber que, mesmo e talvez, apesar de, sermos universitários, pós-graduados, pós-graduandos, mestres e doutores, ainda podemos, mais do que nos admirar, respeitar e aprender, sem nenhum tipo de “preconceito acadêmico”, os trabalhos de gente simples e sem “ estudo formal”, e percebermos que não sabemos nem metade do que eles carregam da sabedoria construída pela vivência.

Em Caraí, mais uma vez fomos surpreendidos de formas diversas.

A primeira surpresa foi a recepção calorosa feita pela mãe de D. Glórinha com aquele belo café da manhã. E depois com as faixas na cidade. O que chama a atenção é que se trata de cidades muito pequenas e nitidamente com poucos recursos financeiros. A impressão que nos dá é que, mesmo eles não tendo nada para si, eles ainda se preocupam em dar o melhor de si, da maneira que for possível:  com palavras, com ações, com pequenos gestos, com comida, etc. que, para pessoas minimamente sensíveis, significam muito mais do que grandes eventos.

interior de Caraí

O interior dessa cidade, onde visitamos D. Noemisa e a família de Ulisses, é extremamente seco, um verdadeiro deserto. Senti-me entrando no livro de Guimarães Rosa. Um Grande Sertão, mesmo. Poucas folhagens verdes cobertas de pó, a recomendação de não consumir a água do local, e apesar dessa realidade, crianças alegres e sorridentes.

Os adultos se encontravam em estado totalmente alcoolizado, sendo muito compreensível tal situação.

É indescritível a comoção ao ver a riqueza artística produzida nesses locais.


Diferentemente da qualidade estética e de acabamento das peças produzidas em Santana do Araçuaí, as peças encontradas em Caraí mostram um aspecto mais primitivista, mais ligado ao mundo dos sonhos, com figuras antropomórficas, totens, carrancas, figuras animalescas, além de pequenas peças ligadas à realidade do dia-a-dia, como vasos, moças próximas a fogões a lenha, cenas cotidianas. Muito simples em sua realização, mas muito belas. Foi triste perceber o principio de discórdia entre os membros de uma mesma família com relação a quem vende mais ou menos peças.

É revoltante tomar conhecimento dessa realidade em um país tão rico em recursos naturais como o nosso. A desvalorização do governo quanto à enormidade da produção artística de nosso povo, enquanto que em qualquer país estrangeiro esse tipo de manifestação é super valorizada.  È triste perceber que a vida dessas pessoas não significa nada, além de, quiçá, um número nas eleições.

Foi nesse momento, que um grupo de pessoas, no meio de todos que se encontravam lá, se juntaram a um canto e começaram a se perguntar que tipo de estudo ou ajuda poderia ser feito nessa região para ajudar essas pessoas a saírem do alcoolismo, da pobreza absoluta, da falta de meios de sobrevivência digna. Espero do fundo da minha alma, já eu o coração, um dia para de bater, que possamos nos reunir novamente e ver o que é possível fazer por eles. Que essa iniciativa não morra com o passar dos dias!


Indo para Minas Novas, o eu encontramos foram comunidades mais organizadas. Tanto as famílias, quanto as artesãs em associações em cada região (Coqueiro Campo e Campo Alegre). As principais artesãs de Coqueiro Campo já receberam o apoio do Sebrae para se tornarem receptivos familiares, ou seja, elas estão aptas a receberem os hospedes (em torno de 6 a 8 pessoas por vez) em suas casas para mostrarem seus processos de produção. Isso gera um aumento de renda para elas e para a circulação de renda e conseqüente crescimento da região como um todo.

Essas associações encontram-se, normalmente à entrada das comunidades e são divididas em prateleiras para cada artesã. Cada peça vendida é catalogada para a distribuição do dinheiro em outro momento. Elas mesmas são responsáveis pela construção e administração desses locais. Além de terem desenvolvido ótimas técnicas de embalagem para que as peças não se quebrem ao longo das viagens pelas estradas de terra encontradas na região. Confesso que fiquei encantada com a forma como elas preparam canudos de jornal apara embalar as peças, alem do plástico – bolha e das sacolas padronizadas para cada comunidade.  Mesmo as peças eu forma compradas nas casas das artesãs seguiam o mesmo padrão de embalagem das realizadas nas associações.

Uma das grandes surpresas, que fez com que vários dos presentes chorassem, foi descobrir em meio às artesãs, uma que além de trabalhar a ceramica como poucas, ainda é poetisa. E com o aval que me é permitido pelo titulo de Letras, uma excelente poetisa! A força de suas rimas e métricas perfeitas, a profundidade de seus temas sobre a realidade do Vale, fizeram com que alguns  dos fruidores no momento. pensassem nas diferentes realidades vistas e vividas e chorassem copiosamente. eu inclusive. è impressionanate como uma pessoa que confessou, com muita dor ter estudado somente até a 4a série do ensino fundamental, ter ese dom e essa capacidade de obsevar seu entorno e traduzir em palavras muito bem combinadas toda a s sorte de emoçoes, sentimentos, revoltas e afins das mulheres locais. parabens deuzani. Quem sabe possamos realizar teu sonho e publicar essas poesias em um belo livro!

Deuzani, artesã e poetisa

A última surpresa ficou pelos integrantes da Congada de São Benedito em Minas Novas. Esse grupo era formado, em sua maioria, por pessoas da melhor idade e algumas crianças.  Os senhores faziam parte dos musicistas e as mulheres da dança. Algumas senhorinhas eram marcantes, tanto pela sua fisionomia marcada quanto pela alegria estampada em seus rostos. Elas quiseram mostrar sua devoção e a continuidade das heranças recebidas de seus antepassados, mais uma vez, o melhor que tem de si. Na hora que pedimos para posarem para fotos conosco, elas fiaram um tanto tímidas no principio, sem entender muito porque um bando de alunos vindos da cidade grande gostaria de ter suas imagens como lembrança. Mas depois dos “flashes”, elas bem que se empolgavam com os resultados, pedindo que mandássemos copias para elas.


Foi realmente marcante, em todos os sentidos, essa possibilidade de entrar em con[tato] com essa realidade e essas pessoas todas com suas organizações  familiares, comunitárias, sociais, culturais. A troca de riquezas foi muito grande, mas mantenho a sensação de que ofereci muito menos do que recebi deles todos.

Eles não devem imaginar o tamanho da lição que recebi nesses dias que passei com eles. O tanto que eles me abriram os olhos, para a realidade, para o outro, e para mim mesma. Pude aprender muito mais do que em anos passados nos bancos de escolas e universidades, e provavelmente muito mais do que aprenderei daqui para frente.


Agradeço a todos os envolvidos nesse processo por essa experiência maravilhosa. Á prof. Lalada pela iniciativa de organizar um curso de tal porte, aos motoristas que dirigiram por muitas e solitárias horas, aos companheiros que se ajeitavam de maneiras inimagináveis para acelerarem o tempo dentro dos ônibus e com a falta de recursos encontrados em alguns pontos. Além dos momentos de diversão passados em grupos menores. Nos hotéis, no ônibus, nos corredores, nas comunidades enfim. Espero que isso não termine por aqui e que possamos dar continuidade, se não em novos projetos, pelo menos nos laços fraternos criados nesses dias. E principalmente às pessoas que nos receberam sempre de braços e corações abertos em suas casas.

~ por Helgha WeiBfüder em setembro 12, 2010.

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