Diário de viagem – visao panorâmica! (Vale do Jequitinhonha)

A viagem, que eu esperava que fosse durar umas 18 horas, acabou durando 22 horas. Saímos de São Paulo rumo a Ponto dos Volantes As 14:45 e chegamos lá por volta das 13.00 do dia seguinte. Com sono, cansados, e com calor. Não tivemos muito tempo para descansar e pensar. Fomos direto a Santana do Araçuaí para visitar dona Izabel e sua família.

Na chegada a Ponto dos volantes fomos recebidos com um café da manhã tardio, por conta de nosso atraso, mas muito bem servido. Pães de diferentes tipos, de queijo, doces, salgados, bolos, chipas, frutas, sucos, café e leite, queijos.. Tudo produzido no local pela família que cuida do hotel.

A cidade de Santana do Araçuaí é bem pequena, mas para minha surpresa, a estrada de acesso esta muito bem conservada. Segundo a coordenadora do curso, tudo em virtude das cerâmicas produzidas no local pelas mulheres lá residentes.

Visitamos Dona Isabel (86 anos), que atualmente só faz suas peças sob encomenda e suas filhas,  filhos e netos que estão espalhados pela cidade de pouco mais de 5 ruas.

santana do Araçuaí

Dona Isabel e uma de suas obras

Depois de percorrermos a cidade o dia todo, voltamos a ponto dos volantes onde passamos a noite, após um jantar maravilhoso, bem ao estilo mineiro, com uma variedade enorme de legumes, carnes, arroz e feijões. E com direito a sorvete na praça central. Essa cidade se encontra a beira da rodovia Rio – Bahia.

Foi engraçado perceber que havia um banco Bradesco, mas não havíamos visto a igreja na praça, então fomos procurar a igreja local, que se encontrava na rua de cima, mas não tinha metade do movimento da praça onde nos encontrávamos.  Divertido também, foi ler erroneamente a inscrição sobre a igreja. A falta de sono e o breu da noite nos fazem esquecer de ler as imagens presentes no meio das palavras cravadas em pedras escuras sobre pedras claras. Lemos: EU SOU DA VIDA. E fomos corrigidos por um dos professores de artes visuais: EU SOU O Y DA VIDA. (eh! Povo de cênicas! Mas alguns de plásticas também não viram o cálice perdido no meio da frase!).

Na manha do dia seguinte, acordamos cedo para nos dirigir a Caraí, mas não sem antes termos mais um café da manha mais pleno que o anterior.

No caminho para Caraí, paramos no sítio da mãe de dona Glorinha, que seria nossa guia neste dia. Qual não foi nossa surpresa ao chegar lá e encontrar uma senhora muito bem disposta no alto de seus 90 anos, muito feliz em receber quase 40 pessoas vindas de muito longe com o propósito de estudar a região. E adivinhem! Mais uma vez, fomos surpreendidos por um belo e repleto café da manhã, com tudo que se possa imaginar.

o segundo cafe da manhã


Um fato que me surpreendeu muito por lá, foi a riqueza natural encontrada no quintal. Em uma região considerada uma das mais secas do país, encontramos um quintal forrado de flores, rosas, árvores, alfaces e outras hortaliças bem vivas e de um verde apetitoso.

Após nos fartarmos mais uma vez, seguimos viagem até o centro de Caraí, onde fomos recebidos por uma faixa do povo da cidade dando-nos as boas vindas, à entrada da cidade, e outra na praça central. Uma honra! Visitamos a coleção de cerâmicas de D. Glorinha que muitas das vezes recebe peças das artesãs de lá em troca de remédios e comida. Uma coleção enorme de peças de todos os tamanhos.

Seguimos por caminhos nunca imagináveis por mim.. Estradas de terra, pedra e areia, cercadas por esparsas casa e muita seca até a casa dos descendentes de mestre Ulisses. Uma região extremamente miserável se pensada em aspectos econômicos, mas muito rica culturalmente, onde varias peças de cerâmica são produzidas por essa família, cada individuo com sua característica própria. O que chama a atenção são as condições que essas famílias encontram para sobreviverem. Alcoolismo, por exemplo, talvez em decorrência do tempo muito seco e quente, talvez pela falta de saneamento da água vinda de açudes (fomos recomendados a não ingerir essa água em hipótese alguma), talvez ainda pela genialidade artística mal aproveitada em seu primórdio. É difícil precisar os motivos para a realidade que nos foi apresentada.


Seguimos para a casa de D. Noemisa, uma das mais tradicionais ceramistas da região. Foi uma visão realmente impressionante. Uma senhora de cabelos grisalhos, extremamente alcoolizada, numa casa muito bem arrumadinha e nova, com um aparelho de televisão recém instalado, mas que não fazia muito sentido para ela. Ela não entendia como a cidade de Caraí havia sido colocada dentro da caixa. Como pode uma casa afastada vários quilômetros de absolutamente qualquer outro sinal de vida ter uma televisão com antena parabólica, mas não ter um banheiro, nem o dito “casinha’” fora da residência? Essa, apesar de não acreditarmos, ainda é uma realidade presente em nosso país. A essa altura das andanças, me encontrava com uma sede jamais imaginada, e proibida de beber a água local, e sem a provisão de água trazida. Voltamos a Caraí, onde fomos recebidos pela primeira dama da cidade para um almoço na casa do prefeito da cidade. Almoço muito gostoso e farto. Seguido de deliciosas sobremesas feitas lá mesmo: pé de moleque, doce de figo, doce de leite e goiabada.

Após esse almoço, seguimos viagem para Minas Novas, onde ficamos até o final da viagem. Algo em torno de 262 quilômetros, 3 horas de viagem, que se transformaram em mais de 300 quilômetros e quase 8 horas de viagem presos no ônibus passando por ribanceiras e estradas de terra amedrontadoras.

Chegamos a Minas novas as 2:30 da manha e acordamos para mais um dia intenso as 6:30 aproximadamente. Visitamos as artesãs de Coqueiro Campo: Deuzani – que alem de ceramista é poetiza, D. Rita e Zezinha com que passamos horas agradabilíssimas aprendendo suas técnicas de queima da cerâmica, entre um café e um bate papo que vale por horas de aula, mas isso fica para um post à parte.

Na manhã seguinte, voltamos à casa de Zezinha para ver como ficaram as peças após a queima e visitamos a associação das ceramistas de Campo Alegre – comunidade que pertence ao distrito de Turmalina. Pela tarde tivemos um City Tour por Minas Novas, conhecendo mestre Antonio, que cria seus próprios instrumento de percussão, o museu da cerâmica do vale do Jequitinhonha, a única igreja octogonal do mundo e o primeiro prédio feito em adobe, caiado com estrume e amarrado com tiras de couro bovino cru.

À noite fomos brindados com uma congada na Praça da Igreja de Nossa Senhora do Rosário, no centro de Minas Novas. Um espetáculo à parte! Muito bom ver as pessoas do local nos ofertando o seu melhor sem pedir nada em troca.

Na volta, ainda tivemos o enorme prazer de sofrer um infortúnio que nos presenteou com uma dádiva. O pneu do ônibus furou! Mas foi ao lado do Rio Paraúna

rio Paraúna

(Presidente Juscelino) e a uns trezentos metros de uma borracharia. O que não nos prendeu por muito mais tempo além do esperado e nos deu a oportunidade de um batismo de Jequitinhonha. Foi o primeiro banho de rio para muitos de nós e uma oportunidade de esfriar a cabeça ou os pés e relaxar um pouco da longa viagem eu nos aguardava à frente.

Nos próximos posts conto um pouco das impressões mais marcantes para mim, pelo ponto de vista do material humano encontrado e suas condições sociais e financeiras.

~ por Helgha WeiBfüder em setembro 10, 2010.

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